06/05/2022  São Paulo

Neste Dia das Mães, a piloto da categoria TCR South America divide um pouco de sua reflexão sobre a maternidade nos tempos atuais.

Carta para as mães: acreditem nos seus sonhos

*Por Bia Figueiredo

É interessante perceber que muitas mulheres ao engravidarem logo começam a sentir o risco de ter a vida profissional prejudicada ou mesmo encerrada para se dedicar à ‘carreira’ de mães.

A maternidade ainda pode ser vista com reticência no campo profissional, imagine então ser mãe de dois. Assim como eu, muitas mulheres pelo país desempenham a função de ‘super heroínas’, que têm o incrível poder de estar presente em todos os momentos da criação das crianças e ainda participar ativamente das tarefas fora de casa. O Dia das Mães, celebrado em maio, nos ajuda a refletir sobre isso tudo.

Como piloto profissional de automobilismo, eu decidi em 2020 dar uma pausa estratégica nas pistas porque queria estar plena com meus filhos que nasceram em 2020 e 2021, respectivamente.

Mesmo no tempo em que fiquei longe das corridas, sabia que isso seria apenas uma fase e logo voltaria a competir. Entendi que era o momento de redobrar os cuidados com a minha mente e o meu corpo. Para isso, mantive rotina intensa de atividades físicas específicas para pilotos, somada aos exercícios físicos clássicos de mãe com os pequenos. Desenvolvi, por exemplo, a habilidade de trocar as fraldas mais rápido do que uma parada nos boxes.

Essa força mental misturada à dedicação física me fez voltar para as pistas, com 37 anos, em alta velocidade numa categoria relativamente nova no país, a TCR South America, que envolve pilotos da América do Sul em carros de turismo e que será disputada até o fim da temporada.

Neste período em que assisti às corridas de longe, conversei com muitas mulheres sobre temas que envolvem a maternidade, como as que abdicaram de cargos importantes para estarem ao lado de seus filhos, e o quão difícil é convencer a sociedade de que continuamos apresentando alta performance profissional mesmo com a responsabilidade materna. Esses diálogos nos fortalecem e são importantes para mostrar que não estamos sozinhas.

O processo de recomeço na carreira de qualquer mãe, como eu senti nesta minha volta às pistas, é tão desafiador quanto nossas principais conquistas profissionais. Posso dizer que competir em igualdade com os demais pilotos na TCR me trouxe uma satisfação comparável à sensação de ter vencido a etapa da Indy Lights, em 2009, até hoje a única mulher a ter atingido esse feito.

Nós, mulheres, carregamos em nosso DNA o dom de sabermos conciliar as tarefas do lar e do trabalho de forma harmoniosa ao ponto de nos mantermos firmes mesmo diante dos obstáculos que possam nos impedir de seguirmos com a nossa trajetória.

Toda mulher é julgada muito antes de ser mãe. Eu fui uma delas. Em um ambiente tão masculinizado como é o automobilismo, quantas vezes ouvi frases mal intencionadas, não pela minha atuação nas pistas, mas simplesmente porque eu era uma mulher que me atrevia a colocar o capacete para ultrapassar os homens nas pistas. Ser ultrapassado por uma mulher no volante era algo vergonhoso. Pode parecer clichê, mas das pedras atiradas eu guardei para construir minha fortaleza.

A maternidade é um grande desafio na vida de uma mulher e ter esta experiência não limita deixar de lado sonhos. Pelo contrário, é uma forma de mostrar o quanto é possível conciliar o desejo pessoal de formar uma família com a dedicação de uma carreira profissional. Afinal, nós, mulheres, temos uma força incrível de superação.

*Bia Figueiredo, é piloto da equipe Cobra Racing Team na TCR South America e tem o patrocínio da Loctite Super Bonder